Durante a maior parte da minha vida adulta, a minha relação com a minha mãe foi de constante conflito e, em boa verdade, chegou mesmo a ser uma relação de ódio. Ficaram-me na memória demasiados episódios de palavras duras, tristeza, remorsos, desgostos e de raiva. Tudo isto à mistura com o anseio de ser amada e aceite…de ser feliz afinal. E isto não foi apenas a minha experiência como filha, mas também o foi na perspetiva da minha da minha mãe. Julgo que que ela sentia o mesmo que eu.

A minha mãe era doente mental. Não sei precisar exatamente qual tipo de perturbação de que sofria, já que nunca foi diagnosticada exatamente, por nenhum dos vários médicos que consultou. Pessoalmente, acho que estava deprimida. Recordo-me de a ver deitada no sofá dias a fio sem reação emocional de nenhum tipo.

Os meus pais, que foram emigrantes Luso-Canadianos, voltaram para Portugal em 1983. Os primeiros sintomas, e a agitação que moldaria os 30 anos seguintes da sua vida, começaram a revelar-se com mais evidência, pouco depois do seu regresso.

Quando ao quadro da doença mental se junta a violência doméstica, não são difíceis de prever as terríveis consequências desta nefasta combinação. Neste caso concreto, as consequências foram trágicas. Não vou porém entrar nesses pormenores…

O que é certo, é que o seu fim foi triste. A minha mãe tinha 68 anos e residia num lar de 3ª idade quando faleceu. Comia apenas comida previamente triturada, que alguém tinha que lhe levar à boca. Para tomar banho necessitava da assistência de outras pessoas e tinha que usar fraldas. Não conseguia andar sem ajuda de outra pessoa e quando tentava pôr-se de pé, caía. Por essa razão estava constantemente sob contenção física quando se encontrava sentada e quando estava na cama. Não conseguia sequer falar de forma coerente de maneira a transmitir as suas necessidades ou expressar as suas preocupações.

No dia 6 de janeiro de 2013 o seu coração fraquejou e a minha mãe faleceu na ambulância a caminho do hospital local. Talvez o seu coração fosse incapaz de prolongar por mais tempo o trauma emocional de que sofria. Porque sofreu muito, a minha mãe, durante toda a sua vida.

Visitei a minha mãe no lar em que se encontrava em setembro de 2012. Foi uma visita curta, de apenas algumas horas. Tinha ido para este lar dois meses antes depois de ter tido alta da ala de Psiquiatria do Hospital de Bragança, no norte de Portugal.

Atualmente sinto-me envergonhada de dizer que a minha visita foi de apenas algumas horas. E dessas horas passei a maior parte do tempo com a funcionária encarregada do caso da minha mãe que me tentava pôr ao corrente do seu estado. Entretanto, aquela mulher que “tinha sido” a minha mãe, estava ali sentada, olhando-me fixamente e incapaz de pronunciar uma só palavra. Na altura pareceu-me que aquilo era o máximo que eu podia fazer. Que era a única coisa com que eu conseguia lidar naquele momento. Hoje reconheço que o que senti, e a reação que tive naquela difícil visita, foram a razão que estão por detrás da minha decisão em ajudar a acabar com a estigmatização relacionada com a Saúde Mental. A imagem de uma mulher fragilizada, precocemente envelhecida e desprotegida, persegue-me. Aquela, que tinha sido outrora uma mulher que durante anos criou uma filha sozinha, a trabalhar em três empregos ao mesmo tempo. É verdade, em três empregos, para poder sustentar a família enquanto o meu pai recuperava de lesões sofridas num acidente de trabalho.

Naquele dia de setembro foi a minha última oportunidade de lhe dizer que a amava – e não o fiz.

Existiram muitas mais oportunidades que desperdicei. Uma, que se destaca das outras, foi quando eu fui a Portugal para visitar o meu avô que se encontrava no hospital, nos cuidados paliativos. Viajei uma grande distância para me despedir dele.

Por coincidência, na mesma altura, a minha mãe encontrava-se no mesmo hospital devido a ter tido mais uma recaída. Tinha dado entrada na unidade de Saúde Mental. Recordo-me de entrar na enfermaria do hospital onde a minha mãe se encontrava e de notar a alegria que demonstrou ao ver-me, dizendo em voz alta aos outros pacientes “A minha filha!!!”, e de me dar um abraço tão apertado que parecia não me querer largar mais. Tudo o que senti foi desconforto. Apeteceu-me fugir! Senti vergonha…muita vergonha. Tenha a certeza que a feri bastante quando lhe disse que estava ali porque o sogro dela estava às portas da morte e eu tinha vindo para me despedir dele. Que não estava ali por causa dela.

A minha mãe estava mentalmente doente e a verdade é que eu tinha vergonha dela. Não tinha na altura nem a compreensão nem a tolerância e muito menos a capacidade de lhe expressar compaixão e amor. Sei que não é possível reviver o passado nem posso fazer o tempo voltar para trás. A Vida não é um filme de Hollywood.

Espero, contudo, que alguém possa aprender com os meus erros.

A minha culpa tornou-me menos tolerante em relação aos que falam mal dos que sofrem de qualquer forma de doença mental.

A decisão que tomei de me perdoar a mim própria, e de efetivamente fazer algo pelos outros, despoletou esta vontade de falar publicamente sobre este assunto e de ajudar #endstigma e contribuir para eliminar com o estigma da Saúde Mental.

A minha mãe chamava-se Adelaide. No seu tempo foi uma mulher forte. Eu amava-a. Só que nunca lhe disse.

Ema Dantas, a filha da Adelaide.